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segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Dia 136 - Lamatar, dia 28

Aniversariante do dia: Manip
A grande novidade do dia seria a chegada de mais um voluntário. Como 90% dos voluntários são voluntárias, previamente, Kat já foi preparando o quarto para a chegada da nossa nova colega.


Para nossa surpresa, chegou um voluntário mesmo! Um garoto chinês, de 17 anos, vindo de Shanghai. As crianças adoraram, já que teriam dois brothers, algo raríssimo. Em 4 anos de orfanato, eu fui o segundo voluntário a vir, pois o restante eram apenas garotas. É importante para as crianças terem um exemplo masculino também.

O chinês veio com uma mala cheia de bugigangas para as crianças (tudo Made in China), entre estojos, canetas coloridas, cadernos, livros e joguinhos.  As crianças adoraram, mas ele trouxe tanta coisa, que o restante, eu vou levar para a escola para distribuir entre os meus alunos, como bônus.


Uma das crianças do orfanato fez aniversário. Manip completou 11 anos e depois do jantar, fizeram uma cerimônia muito bonita. Como não tive tempo para comprar presente, dei um dinheirinho para ele, cerca de BRL30, que aqui é um dinheirão. Cantamos, dançamos e fomos dormir.
Detalhe; os ratos, que foram exterminados há algumas semanas, voltaram.

domingo, 3 de agosto de 2014

Dia 135 - Lamatar, dia 27

Nas extremidades, Sushila e Kalika, as heroínas
Fiquei devendo a música para uma turma, de 10 a 11 anos, mas eles não curtiram tanto quanto os maiores. Mal conseguiam acompanhar e entender o ritmo. De qualquer forma, eles se divertiram e tiveram contato com algo diferente.

No orfanato, há duas mulheres que são responsáveis por cozinhar e limpar a casa. Elas ficam, praticamente, 14 horas por dia por conta dessas tarefas, de domingo a domingo. O mundo delas é o orfanato, já que as crianças, pelo menos, saem para ir a escola e convivem com outras crianças.

Nem amigas elas tem... Creio que esse sacrifício todo seja em função dos filhos, já que uma tem uma menina e a outra tem dois meninos, que vivem no orfanato junto aos demais. Dessa forma, eles terão casa, comida e estudo, algo que sozinhas, elas não conseguiriam prover.

De qualquer forma, mesmo depois de quase um mês de convivência com elas, minha mente ocidentalizada não consegue entender como podem viver tão reclusas do mundo. A ignorância é uma bênção mesmo. Quanto menos se conhece do universo ao redor, menos vontades temos de mudar, ou, pelo menos, menos estímulos. Assim, é possível se contentar com o que tem, ao invés de ficar na ganância de sempre querer mais.


Duas heroínas, criando três crianças, mais treze, sempre com amor e carinho com todos, inclusive com os voluntários.

sábado, 2 de agosto de 2014

Dia 134 - Lamatar, dia 26

08:00 acordei, depois de passar a noite toda brigando com parasitas, e fui conversar com o gerente do hotel. Ele me deu 50% de desconto e dois sucos de manga, no restaurante, praticamente cobrindo todas minhas despesas de hospedagem. Pediu mil desculpas e acusou um chinês, que ficou hospedado na noite anterior no mesmo quarto que eu, de ter levado os parasitas.

Independentemente de desculpas, não sei se na minha próxima ida a Kathmandu, ficarei hospedado naquela espelunca.

Almocei falafel, em um restaurante vegetariano e de lá voltei para casa, naquela confortável jornada de quase duas horas, entre vacas, cachorros e muita, mas muita poeira.


Preparei o material para as aulas da semana e fui brincar com as crianças. No jantar, mais uma vez, arroz com sopa de lentilha. Uma belezura.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Dia 133 - Lamatar, dia 25

Ponto de ônibus em Lamatar
Aconteceu tanta coisa e o dia foi tão intenso, que nem sei por onde começar...
Peguei o transporte cedo, rumo à Kathmandu, mas essa vez foi especial. Como fui mais cedo que o normal, por volta das 07:20, várias mulheres estavam indo vender seus produtos de hortifruti, em cestos enormes e pesados, e a única maneira de irem à cidade é usando as vans. Fiquei impressionado como que as pessoas ajudam umas às outras por aqui, mesmo sendo desconhecidos. Um senso de comunidade e de amor ao próximo impressionantes.

Enfrentei essa maratona apertada e fedorenta e fui direto para o consulado. Um sol de matar e chegando lá, descobri que o meu visto teria duração de 1 mês e, caso desse entrada com o meu passaporte naquele dia, quando o visto vencesse, eu ainda estaria em Nova Delhi. Fiquei enlouquecido de raiva, pois havia conversado anteriormente e me falaram que o meu visto teria duração de 6 meses. Terei que perder novamente o meu tempo para ir lá...

Frustrado, voltei para o centro e fui para o hotel que tenho costume de ficar. O “ meu quarto” estava ocupado, então me deram um outro no 5º andar. Um suplício subir 5 andares de escada, no calor que estava fazendo, mas tudo bem.

Fui ao meu amigo que imprime e faz cópias de arquivos que uso nas salas de aula. Imprimi novas atividades para os alunos, inclusive a letra da música que utilizarei na próxima semana. Lá, tem também, um estúdio de fotografia, então ficamos vendo fotos e pôsteres que ele tem. Comentei sobre a intenção de fazer um pôster com diversas fotos das crianças e ele me deu uma breve aula de como fazer isso no Photoshop. Cheguei no hotel e fiquei horas organizando as fotos e “colando” no futuro pôster, que custará menos de BRL30 e terá 36x48”.

Como frequento os mesmos lugares, já tenho uma certa relação de amizade em hotéis, restaurantes e até com o drug dealer (traficante) local. Cada dia que passa me torno menos turista e mais um cidadão de Kathmandu.

Minha loja! Prakash
Encontrei com meus amigos para jantar e a alemã levou um dos alunos dela, um monge de 19 anos, que está há mais de 10 anos no monastério. Essa experiência foi impagável! O rapaz era um showman e foi o centro das atenções da nossa mesa. Contou histórias de quando foi pego pela polícia, dirigindo sem carteira, das traquinagens que fazem com outros monges e nos ensinou xingamentos em nepalês. Disse que ficou quase 8 anos sem poder sair do monastério, mas hoje ele já tem mais liberdade. Depois de conhecê-lo, pude entender melhor os casos de monges largarem o monastério e se casarem, principalmente com voluntárias.
Quando imaginamos monges budistas, inicialmente, pensamos na vida de abdicações e orações, colocando-os como seres distantes do nosso mundo físico. Entretanto, são tão humanos como nós e, nem todos, tem essa vocação, já que a grande maioria é enviada muito jovem para os monastérios. Combinei de ir jogar bola com os monges, qualquer dia desses.

Voltei para o hotel, querendo apenas uma boa noite de sono, que não aconteceu. Acordei no meio da madrugada, me coçando, e acendi a luz para pesquisar a causa. Minhas suspeitas se confirmaram quando vi um pequeno artrópode caminhando pelo lençol. Bed bugs!!! Os minúsculos insetos, famosos por se hospedar em camas, mordendo e sugando o sangue de viajantes, enquanto dormem. Todo mochileiro já ouviu falar dessas pragas, mas eu nunca tinha tido a experiência. Fui até a recepção e pedi para mudar de quarto, mas o hotel estava lotado e 02:00 da manhã não dá para sair por aí procurando hotéis com vaga.


A solução, dada por mim, obviamente, foi colocar um colchão no chão e dormir por lá mesmo. Algumas horas depois acordei com uma coceira estranha e consegui capturar a fonte. Pulgas! Se não bastasse bed bugs na cama, tinha pulgas no carpete. Matei umas duas e o cansasso venceu o desconforto, por volta de 04:30 da manhã

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Dia 132 - Lamatar, dia 24


A música foi um sucesso. Todos os alunos adoraram e cantaram “Somewhere Over the Rainbow / What a Wonderful World”. Era possível ver no olhos de muitos deles a alegria e emoção em cantar.

Duas meninas copiaram a letra inteira, que não é pequena, no caderno, então como tinha umas cópias reservas, dei para elas, que ficaram na maior satisfação. Em outra série, o menino que mais faz bagunça e conversa na minha aula, foi o que cantou com mais paixão e no final pediu para ficar com a letra.

Passo muitos perrengues por aqui, muitos mesmo, mas nessas horas, tudo vale a pena. Em dois momentos, em duas turmas diferentes, fiquei com os olhos mareados. Depois do show que meus alunos deram, toda semana levarei músicas diferentes. Na próxima semana será “Ain’t no Mountain High Enough”, do Marvin Gaye. Um professor quis assistir a minha aula e adorou a música. Ele é relativamente jovem e tem vontade de estudar no exterior.

Voltei para o orfanato realizado e fui conferir se estava tudo em ordem, para a manhã cedo, ir novamente ao Consulado da Índia.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Dia 131 - Lamatar, dia 23

Roupas no varal do orfanato
Com a faxina do dia seguinte, acabei esquecendo algumas roupas no varal, do lado de fora. Choveu durante a noite e tive que lavar novamente algumas peças de roupa...

Estou, diariamente, tentando abrir a mente dos meus alunos para que eles enxerguem, pelo menos um pouco, além do livro texto que eles tem. Levo sempre atividades que demandem raciocínio e interpretação, o problema é que eles levam muito tempo para conseguir entender e as vezes gasto uma aula explicando e a outra fazendo os exercícios.

Uma das turmas, dos alunos entre 11 e 12 anos de idade, me deixou muito cansado com o falatório durante a aula, então ameacei não levar música para eles. Planejei, para quinta-feira, ensiná-los a cantar “Somewhere Over the Rainbow / What a Wonderful World”, na versão do cantor havaiano Israel Kamakawiwo’ole. Essa versão é bem lenta, além de ser uma bela interpretação. Espero que eles gostem.


Peguei umas caixas de som que tinha no orfanato e coloquei na minha mochila, pois só o som do computador não será suficiente para que eles escutem com uma certa nitidez.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Dia 130 - Lamatar, dia 22

Crianças do orfanato aproveitando o feriado - Filme nepalês
no Youtube
Feriado para quebrar a semana no meio é bom demais. Há mais de quatro meses que não me importo com feriados, dias úteis, sábados e domingos. Especialmente, nesse feriado, completo 1 mês de Nepal.

O que falar desse 1 mês? Poxa, por mais preparado que eu achava que estava, está sendo uma experiência e tanto. Nunca pensei que meu limite de tolerância fosse tão alto, já que nos últimos anos, me mimei bastante. Estou sobrevivendo, entretanto, assumo que essa caminhada está tão difícil, que todos os dias penso em desistir, mas estou encarando esse desconforto com seriedade e disciplina militares. Inclusive, adotei o lema “missão dada é missão cumprida” ainda mais nesse caso, que eu me dei a missão.

Fiz o que toda dona de casa faz nos feriados; lavei muita roupa, arrumei meu quarto e comprei alguns suprimentos. Sem falar que adiantei bem as 800 páginas de “Anna Karenina”, de Tolstoy.

Frequentemente venho pensando o que farei quando voltar ao Brasil. Creio que gostaria de trabalhar na área de vendas, já que me comunico razoavelmente bem e tenho facilidade em lidar com diferentes pessoas. Nesses meses de viagem, foi a única conclusão, a respeito de trabalho, que consegui chegar. Nem sei por onde começar, nem vendendo o que, mas vou amadurecer essa ideia.

Depois de acidentalmente furar a bola de futebol, fui até a cidade comprar uma outra e pedi carona para o coordenador do projeto, em sua moto. O sujeito dirigia igual a um imbecil e eu, obviamente sem capacete, fechei os olhos e rezei para não acontecer nada. Quase-acidentes ocorreram umas 3 vezes. Quando cheguei de volta, me prometi que nunca mais pegaria carona com aquele inconsequente.

Com a bola nova, jogamos futebol por umas duas horas, até que fui organizar o material das aulas de amanhã. Apesar de toda a precariedade da escola, da falta de preparo dos professores e alienação total dos alunos, faço o meu melhor para passar o que eu sei para eles.
 
 
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