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domingo, 17 de agosto de 2014

Dia 149 – Lamatar, dia 41

Oração de despedida
Por algum motivo, demorei muito para escrever sobre os meus últimos momentos no orfanato. O alívio de deixar tudo isso para trás era enorme, mas ao mesmo tempo, um enorme pesar por deixar as crianças.
O motorista chegou 2 horas antes do combinado, então tive que terminar de empacotar as coisas na mochila em velocidade recorde. A dificuldade de seguir um planejamento, por aqui, é enorme. Ou chegam muito cedo, ou atrasam muito, ou não aparecem. Cumprir o combinado? Jamais!

Despedi de todos com o coração partido, enquanto um a um me entregava uma cartinha de despedida. Entrei na van e todos acenavam para mim, enquanto sumíamos no horizonte; cena de filme mesmo.
Junto com o motorista, tinham duas garotas na van, que tinham acabado chegado do aeroporto. Uma delas, Alessandra, era brasileira! Primeira brasileira que conheci no Nepal, e última. Hehehe
Conversei com um pouco com ela e já assustei a menina, coitada. Mas como já disse anteriormente, aqui é diferente de tudo que já vi.


Últimos momentos
Chegamos no hostel da organização responsável e nunca vi tantos voluntários por lá. Uma festa e uma bagunça só. Europeus, americanos, chineses, brasileiros; a verdadeira torre de papel. Por esse motivo resolvi passar uma noite por lá, antes de ir para meu hotel, no centro de Kathmandu.
A coceira no olho melhorou um pouco. Creio que era alergia a alguma coisa da casa onde eu estava morando. Continuo pingando o colírio, só para garantir que estarei 100%.



Na parte da noite, jogamos cartas e um jogo que cada um teria que falar uma palavra em uma língua estrangeira. Começamos com alemão, onde os que não tinham muito conhecimento da língua, se apegaram a palavras relativas à Segunda Guerra, tipo Luftwaffe e Blitzkrieg. Passamos para o francês, e chegamos no português, um fiasco total. Gosto muito da minha língua pátria, mas devido a sua irrelevância no cenário internacional, creio que ela seja meio que inútil. Triste isso.

sábado, 16 de agosto de 2014

Dia 148 – Lamatar, dia 40

Despedida com uma bela noite estrelada
Finalmente um solzinho para animar o meu último dia por aqui. A sensação de abandonar o projeto é bem estranha. Uma mistura de felicidade, por voltar à civilização, mas de tristeza, por deixar as crianças para trás.

Organizei minha mochila e fiquei impressionado com o peso... O voo de Kathmandu para a Índia, permite apenas 20kg de bagagem, então talvez eu tenha que pagar excesso de bagagem, ou ficar naquela farofa de ficar tirando peso da mala para despachar. Provavelmente, ficarei na segunda opção.

Combinei com o motorista da organização, de me buscar pela manhã, mas como sei que os horários nepaleses são bem relaxados, nem vou ficar preocupado não.

Passei o dia tentando ficar mais perto das crianças e curtindo meus últimos momentos com elas. Na parte da noite, teve uma programação especial de despedida, onde elas rezaram, cantaram e dançaram. Uma das rezas, eu gosto muito, apesar de não ter ideia do que estão falando e, sabendo disso, elas cantaram lindamente. Depois uma a uma foram se levantando e despedindo de mim, agradecendo por tudo, com um mini discurso.


Antes de dormir, fiquei conversando com os garotos mais velhos, curtindo ao máximo minha última noite.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Dia 147 - Lamatar, dia 39

Área para queimar o lixo - as vezes
me sinto na idade média
Vem chovendo há três dias e a previsão do tempo informou que continuará assim até domingo. Por conta disso, não consegui tomar banho ontem, já que o aquecedor é solar, e nem pude lavar roupa.

Começamos a assinar o principal jornal, em inglês, chamado Kathmandu Post. As matérias são bem escritas, apesar de falarem muito sobre a Índia, mas tem coisas boas, inclusive extraídas do New York Times e da agência de notícias Reuters. A assinatura anual, custou NPR1700, BRL47, sendo que a entrega é diária; um valor insignificante.

Nos últimos dias, desenvolvi uma coceira insuportável no olho esquerdo. Estou pingando um colírio que trouxe, mas não acho que está fazendo efeito algum. Espero que não seja nada grave, já que em 147 dias de viagem, não tive absolutamente nenhum problema de saúde. Se a coisa apertar, procurarei um médico.

Levei o lixo para queimar, pois aqui, não tem coleta de lixo. Joga-se tudo pelo chão, ou queimam, após acumular uma certa quantidade.

Tivemos apenas alguns minutos de sol, insuficientes para aquecerem a água do banho. Respirei fundo e entrei debaixo daquela água gelada, até então, o banho mais frio que já tomei.


Continuei guardando as coisas na mochila, e o que não precisarei mais, deixarei aqui no orfanato, ou com outros voluntários, em Kathmandu.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Dia 146 - Lamatar, dia 38

Aquele dia chuvoso
Comparando meus dias anteriores com os mais atuais, é perceptível que as coisas que me incomodavam muito, assim que cheguei ao Nepal, tornaram-se menos relevantes do que as experiências vividas.


A comida continua fraquíssima, inclusive recebi algumas receitas da APAE, mas o problema não é falta de alimento, mas sim crer que arroz é o mais importante alimento.

Vez ou outra, ratos continuam assombrando o forro do teto. Uns dias atrás ocorreu até uma briga entre eles – ouvi os gritos.

Dores de cabeça entre as crianças são tão corriqueiras, que já não me assustam mais. Quase todo dia tem alguma se queixando de dores. A primeira coisa que fazem é se recolher e não almoçar/jantar. Ninguém toma providências para ajudar, então entro em ação com remédios, com poderes especiais (paracetamol), e levo comida para o adoentado. Ficar sem comer nunca ajuda em nada. Além de dores, os problemas respiratórios também estão por toda parte.

Alguns ambientes são absurdamente insalubres, com mofo por todos os lados e, em um determinado quarto, o cheiro de urina é tão forte, que não consigo entrar. Como ninguém toma providência, creio que nem percebem e/ou não se incomodam.

Banho? Uma vez e meia por semana. A meia é por conta das meninas lavarem os cabelos no decorrer dos dias.

Com todas essas questões que me incomodam, e muito, superá-las vem sendo relativamente fácil, principalmente, quando se vê a alegria de todos brincando, o carinho de uns com os outros, a dedicação dos responsáveis pelo orfanato. Todos aqui se chamam de irmãos e vivem realmente em uma irmandade de dar inveja a muitas famílias, unidas apenas pelo laço sanguíneo, e que teriam tudo para serem imensamente felizes, mas esse pretérito, é imperfeito.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Dia 145 - Lamatar, dia 37

Pôster no alto da parede, para evitar mãozinhas nervosas
Cento e quarenta e cinco dias longe de casa, pelo menos fisicamente, já que com a internet, tudo e todos ficam mais perto. Várias pessoas perguntam se saudades de casa, mas tenho vivido tantas experiências, que me sinto em casa, afinal, nosso lar está mais dentro de nós do que em construções de pedra.

Na parte da manhã, fui colocar o pôster na parede da sala do orfanato e tomei um susto. Alguém mexeu nele e quebrou parte da sustentação, me obrigando a utilizar vários recursos técnicos. No fim das contas, ficou ótimo e quando as crianças voltaram das provas da escola, ficaram admirando as fotos.


Choveu o dia inteiro praticamente, mas as poucas horas de sol, garantiram meu banho morno.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Dia 144 - Lamatar, dia 36

Passagem aérea para Nova Delhi comprada, hotel com ar condicionado reservado (nessa época estará bem quente), passaporte entregue ao consulado. O que dependia de mim par air a Índia, já está 90% encaminhado, faltando apenas ir buscar o passaporte na próxima semana.

Fiz uma lista de coisas a fazer no decorrer da semana, já que estou com bastante tempo livre. Organizei a mochila, colocando a maior parte dos itens que não precisarei nos próximos dias, dentro, e lavei algumas peças de roupa, aproveitando que o dia foi bem ensolarado.

Passei boa parte do dia todo jogando scrabble, um jogo de tabuleiro, onde o objetivo é formar palavras. Um bom exercício.


Fui pesquisar passagens de trem e hotéis para ir a Munique, participar do Oktoberfest. Quase caí para trás, quando vi que hotéis e hostels estavam praticamente 100% reservados e os que sobraram eram absurdamente caros, inviabilizando a minha estadia. Infelizmente, terei que deixar o Oktoberfest para a próxima oportunidade, quando agendarei com meses de antecedência. Lição aprendida.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Dia 143 - Lamatar, dia 35

Pôster com as fotos das crianças
Meu objetivo de ir a Kathmandu, foi cumprido após a impressão do pôster, mas ainda tinha mais uma coisa a fazer. Ir até o consulado da Índia.

Pela terceira vez, caminhei 30 minutos até chegar ao consulado, que estava lotado. Um pequeno grupo de chineses, sempre perdidos, barulhentos e confusos, tumultuou a sala de espera inteira. Dei entrada com o passaporte e na próxima terça-feira, véspera da minha viagem, irei busca-lo.

Almocei uma boa comida, com direito a sobremesa e parti, rumo a Lamatar.
A viagem com o pôster enorme, uma mochila e uma sacola com suprimentos, nos transportes precários do Nepal, foi um sofrimento.


Cheguei com o pôster e a meninada adorou. Minha intenção era entregar mais perto da minha saída do projeto, mas não quis esperar não.

sábado, 9 de agosto de 2014

Dia 141 - Lamatar, dia 33

Sangita estudando - uma das fotos que adicionei ao pôster
O motorista da organização combinou que viria por volta das 15:00 nos buscar. Às 16:00 ele enviou uma mensagem dizendo que estava ocupado e não poderia mais vir, e apareceria apenas no domingo, pela manhã. Ficamos putos, pois estávamos prontos, esperando por ele, quando o irresponsável deu notícias.

Eu já estou um pouco acostumado com esses imprevistos, mas o china ficou enlouquecido. No Nepal, os horários são bem relaxados.

A parte chata foi que as crianças tinham ido fazer uma caminhada até um mirante da região e não fui porque estava esperando o motorista. Acabei que fiquei sem as duas coisas.

Esse foi o primeiro sábado que passei o dia todo no orfanato, já que, normalmente, vou para Kathmandu na sexta e volto sábado de tarde. Acompanhei o banho da semana das crianças. Sim, aqui, a teoria de se tomar banho apenas aos sábados existe, mas no calor que tem feito, se lavar uma vez por semana é impraticável. O pior é ouvir que sou extremista.


Aproveitei e tirei mais algumas fotos para completar o pôster e peguei alguns filmes chineses com legenda que o xing tinha no computador; curioso para saber como são filmes chineses.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Dia 140 - Lamatar, dia 32

Parte da carta da minha aluna
Mesmo sem ter tido tempo de preparar uma despedida para os meus alunos, peguei lápis, borrachas, estojos e canetas que o chinês trouxe de sobra, para dar de brinde para eles. Claro que não seria de graça, teriam que se esforçar para ganhar.


Formulei algumas perguntas sobre aulas que dei, junto com algumas de conhecimento geral. Não deixou de ser uma maneira de reforçar o conteúdo, estimulando todos a tentarem pensar. Distribuí todos os presentes e os alunos lutaram bravamente para consegui-los.

No fim das aulas, quando já estava do lado de fora da escola, uma das minhas alunas, da sétima série, me entregou um cartão que ela fez, se despedindo de mim e agradecendo pelas aulas. Nunca imaginaria receber um presente de despedida, mas fiquei extremamente satisfeito.

A mensagem que tentei deixar para os alunos é que há um mundo imenso fora do Nepal e que eles devem estudar e trabalhar para conhecer pelo menos um pouquinho dele.

Tirei mais algumas fotos e deixei o arquivo do pôster, que fiz para as crianças, pronto para ser impresso. Amanhã vou para Kathmandu e imprimo por lá.



quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Dia 139 – Lamatar, dia 31

Mãe e Mausam, com seu sorriso impagável
Comecei o dia fazendo uma conferência com a América, via bluetooth do carro; conversamos eu, Marcelisio, Renato Lantin e a menina que não sei o nome. Diversão e risadas garantidas. Sugeri que me visitem na Alemanha e eles analisarão a proposta de passar o réveillon em Berlim, comigo.

Recebi a notícia que um nepalês, que mora na América, leu o meu blog e achou minhas opiniões sobre o país, muito extremas. Vale ressaltar que o blog é minha página pessoal, onde minhas experiências são descritas a partir da visão cretina que tenho das situações do dia a dia.


A criançada adorou cantar Ain’t no Mountain High Enough e cantaram, pelo menos o refrão, com o maior empenho. O poder da música me fascina! Do mais bagunceiro, ao mais quieto, todos curtiram e tentaram acompanhar a letra. Alunos de outras classes pediram para participar também. No total, reproduzi 18 vezes a música e assumo que ficarei um bom tempo sem ouvi-la.

Um aluno, que não era das turmas que eu tenho costume de lecionar, ignorou totalmente e não quis participar da cantoria. Quando perguntei onde estava a letra da música, ele disse que tinha jogado pela janela. Fiquei puto com a atitude do pirralho e mandei ele ir buscar a letra. Ele buscou, recolhi a letra e ele ficou a aula toda olhando com cara de tacho, enquanto os seus colegas aproveitavam o momento. Uma pena ele não ter a maturidade que os outros tiveram.

Recebi a notícia bombástica, que na próxima semana eu não darei aulas, já que é a semana de prova dos estudantes, o que quer dizer que tenho apenas mais um dia de aula, na sexta-feira. Fiquei chateado, pois com o imprevisto, não deu tempo de preparar nada de especial, para a minha despedida da escola.
No orfanato jogamos Uno, um jogo de cartas italiano, que o japa, digo, China, trouxe de presente.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Dia 138 - Lamatar, dia 30

Galerinha reunida para despedida da Kat
Última manhã da Kat no orfanato. Daqui ela vai para Londres e passará uns dias pela Europa, antes de voltar à América. Em sua homenagem, comi parte do meu delicioso café da manhã utilizando as mãos; estilo nepalês. Experiência nada agradável, mesmo estando com as mãos bem lavadas.

Sugeri ao China ir comigo para a escola e ver a situação em que as crianças estudam. Meu raciocínio foi o seguinte; o orfanato recebe vários voluntários por ano, então, o nível de exposição e possibilidades de ajuda, são bem maiores que na escola. Além do mais, com 250 alunos, qualquer melhoria feita na escola, beneficiará uma comunidade, ao invés de poucas crianças.
Ele ficou chocado com a situação de algumas salas, com a falta de organização e de estrutura, além da indisciplina dos alunos. Conversamos com o diretor, que deu algumas sugestões de como ele poderia ajudar.

A minha opinião é que eles são tão desorganizados, que o melhor a se fazer seria ajudar a consertar algumas coisas da escola, ao invés de enviar dinheiro, que poderia, facilmente, ser mal aplicado. Outra ajuda seria algum tipo de curso de como dirigir uma escola, já que lá é tudo uma bagunça inacreditável.

Na parte da tarde, todos meus alunos foram fazer um trabalho de campo, então não dei parte das aulas.

Voltei para casa e ajudei algumas crianças no dever de casa, enquanto organizava o material para levar uma música nova para a escola. Escolhi Ain’t no Mountain High Enough, do Marvin Gaye. Essa música é muito alto astral, com uma letra simples e bonita. Tenho certeza que a molecada vai adorar.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Dia 137 - Lamatar, dia 29

Minhas alunas da 5ª série
Meu amigo Xing Ling me impressionou com a seriedade e empenho que ele está tratando de alguns assuntos. Sendo de uma família muito rica de Shanghai, ele veio como porta voz da família e de amigos prósperos, com o intuito de investir no orfanato e no futuro das crianças.

Na parte da manhã ele marcou uma reunião com o coordenador, para saber as possíveis formas de ajudar. Da 1ª a 10ª série, a escola é pública, então para continuar os estudos, cada criança precisa de um patrocinador, responsável por enviar USD100,00 mensais, no período de dois anos. Uma quantia insignificante, para ajudar na formação de um jovem. Saroj, o adolescente que levei para passar um final de semana em Kathmandu, recebe esse dinheiro, mas outros, que estão chegando nessa faixa etária, ainda não.


Continuo tirando mais fotos, para colocar no mural que estou fazendo para o orfanato, que está cada vez mais bacana. Assim que estiver pronto, coloco fotos de como ele ficou.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Dia 136 - Lamatar, dia 28

Aniversariante do dia: Manip
A grande novidade do dia seria a chegada de mais um voluntário. Como 90% dos voluntários são voluntárias, previamente, Kat já foi preparando o quarto para a chegada da nossa nova colega.


Para nossa surpresa, chegou um voluntário mesmo! Um garoto chinês, de 17 anos, vindo de Shanghai. As crianças adoraram, já que teriam dois brothers, algo raríssimo. Em 4 anos de orfanato, eu fui o segundo voluntário a vir, pois o restante eram apenas garotas. É importante para as crianças terem um exemplo masculino também.

O chinês veio com uma mala cheia de bugigangas para as crianças (tudo Made in China), entre estojos, canetas coloridas, cadernos, livros e joguinhos.  As crianças adoraram, mas ele trouxe tanta coisa, que o restante, eu vou levar para a escola para distribuir entre os meus alunos, como bônus.


Uma das crianças do orfanato fez aniversário. Manip completou 11 anos e depois do jantar, fizeram uma cerimônia muito bonita. Como não tive tempo para comprar presente, dei um dinheirinho para ele, cerca de BRL30, que aqui é um dinheirão. Cantamos, dançamos e fomos dormir.
Detalhe; os ratos, que foram exterminados há algumas semanas, voltaram.

domingo, 3 de agosto de 2014

Dia 135 - Lamatar, dia 27

Nas extremidades, Sushila e Kalika, as heroínas
Fiquei devendo a música para uma turma, de 10 a 11 anos, mas eles não curtiram tanto quanto os maiores. Mal conseguiam acompanhar e entender o ritmo. De qualquer forma, eles se divertiram e tiveram contato com algo diferente.

No orfanato, há duas mulheres que são responsáveis por cozinhar e limpar a casa. Elas ficam, praticamente, 14 horas por dia por conta dessas tarefas, de domingo a domingo. O mundo delas é o orfanato, já que as crianças, pelo menos, saem para ir a escola e convivem com outras crianças.

Nem amigas elas tem... Creio que esse sacrifício todo seja em função dos filhos, já que uma tem uma menina e a outra tem dois meninos, que vivem no orfanato junto aos demais. Dessa forma, eles terão casa, comida e estudo, algo que sozinhas, elas não conseguiriam prover.

De qualquer forma, mesmo depois de quase um mês de convivência com elas, minha mente ocidentalizada não consegue entender como podem viver tão reclusas do mundo. A ignorância é uma bênção mesmo. Quanto menos se conhece do universo ao redor, menos vontades temos de mudar, ou, pelo menos, menos estímulos. Assim, é possível se contentar com o que tem, ao invés de ficar na ganância de sempre querer mais.


Duas heroínas, criando três crianças, mais treze, sempre com amor e carinho com todos, inclusive com os voluntários.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Dia 132 - Lamatar, dia 24


A música foi um sucesso. Todos os alunos adoraram e cantaram “Somewhere Over the Rainbow / What a Wonderful World”. Era possível ver no olhos de muitos deles a alegria e emoção em cantar.

Duas meninas copiaram a letra inteira, que não é pequena, no caderno, então como tinha umas cópias reservas, dei para elas, que ficaram na maior satisfação. Em outra série, o menino que mais faz bagunça e conversa na minha aula, foi o que cantou com mais paixão e no final pediu para ficar com a letra.

Passo muitos perrengues por aqui, muitos mesmo, mas nessas horas, tudo vale a pena. Em dois momentos, em duas turmas diferentes, fiquei com os olhos mareados. Depois do show que meus alunos deram, toda semana levarei músicas diferentes. Na próxima semana será “Ain’t no Mountain High Enough”, do Marvin Gaye. Um professor quis assistir a minha aula e adorou a música. Ele é relativamente jovem e tem vontade de estudar no exterior.

Voltei para o orfanato realizado e fui conferir se estava tudo em ordem, para a manhã cedo, ir novamente ao Consulado da Índia.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Dia 131 - Lamatar, dia 23

Roupas no varal do orfanato
Com a faxina do dia seguinte, acabei esquecendo algumas roupas no varal, do lado de fora. Choveu durante a noite e tive que lavar novamente algumas peças de roupa...

Estou, diariamente, tentando abrir a mente dos meus alunos para que eles enxerguem, pelo menos um pouco, além do livro texto que eles tem. Levo sempre atividades que demandem raciocínio e interpretação, o problema é que eles levam muito tempo para conseguir entender e as vezes gasto uma aula explicando e a outra fazendo os exercícios.

Uma das turmas, dos alunos entre 11 e 12 anos de idade, me deixou muito cansado com o falatório durante a aula, então ameacei não levar música para eles. Planejei, para quinta-feira, ensiná-los a cantar “Somewhere Over the Rainbow / What a Wonderful World”, na versão do cantor havaiano Israel Kamakawiwo’ole. Essa versão é bem lenta, além de ser uma bela interpretação. Espero que eles gostem.


Peguei umas caixas de som que tinha no orfanato e coloquei na minha mochila, pois só o som do computador não será suficiente para que eles escutem com uma certa nitidez.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Dia 130 - Lamatar, dia 22

Crianças do orfanato aproveitando o feriado - Filme nepalês
no Youtube
Feriado para quebrar a semana no meio é bom demais. Há mais de quatro meses que não me importo com feriados, dias úteis, sábados e domingos. Especialmente, nesse feriado, completo 1 mês de Nepal.

O que falar desse 1 mês? Poxa, por mais preparado que eu achava que estava, está sendo uma experiência e tanto. Nunca pensei que meu limite de tolerância fosse tão alto, já que nos últimos anos, me mimei bastante. Estou sobrevivendo, entretanto, assumo que essa caminhada está tão difícil, que todos os dias penso em desistir, mas estou encarando esse desconforto com seriedade e disciplina militares. Inclusive, adotei o lema “missão dada é missão cumprida” ainda mais nesse caso, que eu me dei a missão.

Fiz o que toda dona de casa faz nos feriados; lavei muita roupa, arrumei meu quarto e comprei alguns suprimentos. Sem falar que adiantei bem as 800 páginas de “Anna Karenina”, de Tolstoy.

Frequentemente venho pensando o que farei quando voltar ao Brasil. Creio que gostaria de trabalhar na área de vendas, já que me comunico razoavelmente bem e tenho facilidade em lidar com diferentes pessoas. Nesses meses de viagem, foi a única conclusão, a respeito de trabalho, que consegui chegar. Nem sei por onde começar, nem vendendo o que, mas vou amadurecer essa ideia.

Depois de acidentalmente furar a bola de futebol, fui até a cidade comprar uma outra e pedi carona para o coordenador do projeto, em sua moto. O sujeito dirigia igual a um imbecil e eu, obviamente sem capacete, fechei os olhos e rezei para não acontecer nada. Quase-acidentes ocorreram umas 3 vezes. Quando cheguei de volta, me prometi que nunca mais pegaria carona com aquele inconsequente.

Com a bola nova, jogamos futebol por umas duas horas, até que fui organizar o material das aulas de amanhã. Apesar de toda a precariedade da escola, da falta de preparo dos professores e alienação total dos alunos, faço o meu melhor para passar o que eu sei para eles.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Dia 129 – Lamatar, dia 21

Corredor da escola
parcialmente inundado
Não acordei muito bem disposto. Quanto mais o tempo vai passando, mais cansado vou ficando daqui. Mesmo minhas pausas, quando vou para Kathmandu, não estão fazendo mais efeito, até porque, é extremamente moroso chegar e sair de Kathmandu. Sei que é passageiro, mas estou bem desgastado e ainda tem a preocupação se vou ou não a Israel.

Vários professores faltaram, porque, de acordo com os alunos, eles tinham que ir ao médico. Imagino o tanto que isso não acontece com frequência por aqui. A parte boa foi que eu estava por lá, então cobri vários buracos que os professores ausentes deixaram. Descobri que amanhã é feriado, por algum motivo que ninguém sabe explicar, então vai ser um dia para lavar roupas, minha mochila que está imunda, dar uma geral nas coisas.

Sala de aula
Na próxima quarta, Kat, a americana que está aqui no projeto comigo, vai embora e ficarei “sozinho”. Como já estou bem ambientado, não será problema algum, até porque, passo a maior parte do dia na escola, enquanto ela fica em casa.

Conversei com uma amiga que mora em Dubai, então nos próximos dias decido se mantenho o plano de Jordânia e Israel, ou se mudo a passagem para Dubai. Com o cessar fogo estabelecido nos últimos dias, tenho fé que até setembro tudo estará mais tranquilo entre Israel e o Hamas. Me resta aguardar.

domingo, 27 de julho de 2014

Dia 128 –Lamatar, dia 20

Sala de aula da escola
Por conta da cama não ser nada confortável, tenho acordado cedo todos os dias, por volta das 06:00. A parte boa é que até a hora de ir para a escola, 09:30, tenho tempo de lavar minhas roupas, preparar as aulas, ajudar as crianças nos deveres de casa, e ainda assisto a algum seriado que tenho no computador. Isso que é aproveitar o tempo.

Levei o material que preparei sobre a América do Sul para o professor avaliar. Depois de correr o olho pelas 4 páginas, ele me pediu para lecionar hoje e amanhã. O que me incomodou um pouco, é que ele estava ocupado e não acompanhou a aula. Um folgado, mas fiz o que pude para repassar o conteúdo. Amanhã finalizo.


Voltei para casa e fiquei um pouco com as crianças, enquanto elas faziam os deveres de casa. Vendo a maneira como elas estudam, me deixa profundamente chateado. Não existe interpretação de texto e elas aprendem coisas muito além do que tem realmente capacidade, obrigando-as a apenas decorar o que está escrito no livro, muitas vezes frases sem pé nem cabeça. Não sei onde o Nepal vai parar, com pessoas que só repetem, igual a um gravador, sem o mínimo de senso crítico e poder de argumentação – vai ver, é essa a intenção.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Dia 125 - Lamatar, dia 17

Maosam brincando com meu guarda-chuva
De Junho a Agosto, é a época das monções no Nepal, então chove praticamente todos os dias, muitas vezes, o dia inteiro. Por conta dessas chuvas, um corredor da escola ficou inundado boa parte do dia.  Também percebi que as salas de aula não tem iluminação, então, quem senta longe da janela, tem extrema dificuldade de enxergar o que está na mesa.

As aulas foram para treinar leitura e pronúncia, com um texto sobre a colonização do Brasil. Me assustei com a dificuldade em ler, inclusive dos maiores. A partir de agora, toda aula terá esse momento de leitura, pois além de ajuda-los com pronúncia e fluência, é uma forma de ficarem calados.
Falando nisso, o dia foi uma beleza. O coordenador conversou com a turminha da bagunça e todo mundo ficou relativamente quieto.


Voltei para casa e fui verificar minha documentação para o visto indiano, já que amanhã cedo irei, finalmente, entrar com o pedido.
 
 
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