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quarta-feira, 16 de julho de 2014

Dia 117 - Lamatar, dia 9

Sugam mostrando sua tatuagem 
Meu leite de soja estragou! Comprei várias caixinhas com leite de soja, e uma caixa grande, de um litro, que abri segunda-feira. Por estar fora da geladeira, ele durou menos de 48 horas. Lição aprendida, agora, vou comprar apenas pequenas caixas, para evitar desperdícios.



Terminei de ler “Into Thin Air” e comecei outro livro do Jon Krakauer, chamado “Into The Wild” – só tragédia! Quanto mais leio sobre o Everest e os efeitos de grandes altitudes no corpo humano, menos entendo porque as pessoas continuam se arriscando e morrendo congeladas, caindo em abismos, sendo atropeladas por avalanches. Parece uma espécie de perversão.

Descobri que a casa onde fui fazer as filmagens do filme Destination Kathmandu é dos responsáveis pelo orfanato!! É tanta coincidência, que quando mostrei o vídeo para a mãe, nem ela acreditou. Todos quiseram ver os vídeos e fotos, então mostrei um a um, na maior paciência do mundo.

Enquanto atualizava meu blog, Saroj, de 16 anos, ficou vendo as fotos que tenho no meu telefone e perguntando sobre os lugares que já fui. Será que ele algum dia terá a oportunidade de sair do Nepal? Comecei a perguntar para ele o que ele conhece de Kathmandu, e descobri que eu conheço mais que ele. Durante a nossa conversa, tive o insight de levá-lo, no próximo final de semana, para Kathmandu, onde ele terá a oportunidade de ampliar um pouco seus horizontes e descansar da rotina do orfanato. Pedi autorização para os coordenadores e já está tudo combinado.

Saroj posando com uma vista incrível
Sexta-feira iremos para Kathmandu e voltaremos domingo. Conversarei com o pessoal, para saber se devo tomar alguma precaução, já que somos de mundos bem diferentes. Espero estar tomando uma boa decisão.



Depois do jantar, fomos todos fazer tatuagens de hena, já que é algo tradicional por aqui. Os desenhos, sempre com significados religiosos ou florais, devem ser feitos na mão esquerda e ficam marcados por até duas semanas. Deixei um dos meninos fazer o meu - ficou tenebroso...

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Dia 116 - Lamatar, dia 8

Sushila fazendo graça
Evito julgar, mas já que as duas americanas ficarão apenas 1 semana no projeto, deveriam tentar estar mais presentes no dia-a-dia das crianças. Hoje, saíram do quarto as 09:30, quando o “almoço”, já estava sendo servido, mesmo assim, porque chamei as duas.

Depois do almoço, peguei minha câmera para fotografar as crianças, que ao perceberem, ficaram posando e fazendo todo tipo de traquinagem possível. Estive pensando em dar algum presente para elas, antes de ir embora, porta-retratos com a foto de cada um, ou um pôster com a foto da família inteira reunida... Tenho que pensar em algo que elas não vão destruir em 5 minutos e que seja útil.

Parte da família
Percebi em um dos órfãos, Moham, de 16 anos, anda com bastante dificuldade devido a problemas na coluna. Ele já passou por duas cirurgias e tem uma cicatriz enorme, da base do pescoço, até o fim da lombar. Para ajudar no tratamento, ele toma pílulas de cálcio e, a cada 6 meses, vai ao médico checar como está a evolução do seu quadro. Um sofrimento danado, para alguém de apenas 16 anos, mas ele nunca tira o sorriso do rosto.

Pão quentinho, feito na hora

Diariamente paro para pensar qual é a real contribuição que posso dar às crianças, enquanto estiver por aqui. Aos poucos, estou chegando à conclusão de que estando presente, dando carinho e atenção, são as formas que tenho para ajudar. No fim das contas, a impressão que eu tenho é que essa experiência vai ajudar mais a mim do que a eles. Assistir a tudo isso, faz a gente ser extremamente grato por tudo que tem, desde à família, até o conforto da nossa cama.
Já se passaram 8 dias, mas ainda não estou 100% adaptado. As vezes ainda bate um desespero e uma vontade de sair correndo, mas respiro e lembro que além de ser passageiro, tudo tem um motivo maior.

Especialmente hoje, tivemos um lanche da tarde, com pão e chá. O pão foi feito artesanalmente pelas cozinheiras, mas por ser um pouco pobre, passei manteiga de amendoim, para dar um upgrade na refeição – estou usando tudo que comprei e acho que fiz boas escolhas.


Fui dormir mais cedo que todo mundo, com um estranho cansaço.

Dia 115 - Lamatar, dia 7

Café da manhã, leite de soja com cereais
Engraçado como mudamos nossa perspectiva, de acordo com o passar do tempo.  No início, eu só via ratos, desconforto e sujeira. Hoje consigo ver muito mais do que isso, apesar desses elementos continuarem presentes. É a velha história de fazer uma limonada com os limões que são dados. Graças a essa mudança de perspectiva, o trajeto se torna menos doloroso e mais prazeroso.

Meu café da manhã, foi banana com cereais e leite de soja, mantimentos que comprei para me ajudarem a passar os próximos dias e que já estão fazendo a diferença, pois durante todo o dia, não fiquei com aquela desagradável sensação de fome, que me assolou na primeira semana.

Minha bota com vista para
Kathmandu
Mas claro, que por mais que eu me esteja adaptando bem, sempre tem umas novidades... Por algum motivo, apenas o meu quarto está sem energia elétrica, e pelas investigações que fizemos, acho que é algum curto-ciruito que não deixa o disjuntor armado. Procuramos por horas onde seria o problema, mas não descobrimos nada, então, amanhã, chamarão um eletricista para tentar identificar o problema.

As meninas precisavam comprar água e papel higiênico (vale reforçar que os locais não usam papel higiênico, mas a mão esquerda), então, depois do almoço, 09:30 da matina, fui com elas até algumas lojinhas onde compraríamos esses itens e algo mais que precisássemos. Obviamente caiu uma tempestade e ficamos presos, por quase duas horas, na lojinha. Seguindo a máxima de tirar proveito de tudo, comprei um baralho e ensinei um jogo de cartas, super simples, que aprendi por aqui. Enquanto jogávamos, várias pessoas ficaram assistindo e participando do jogo, ajudando as meninas, já que ele é extremamente popular e difundido no Nepal.

A chuva diminuiu e coloquei meu novo calçado à prova. Terreno extremamente irregular, com buracos, lama, poças d’água, mas minha bota se saiu super bem, sendo confortável, estável e resistente à água. Chegamos em casa e estavam distribuindo as frutas que comprei para as crianças, em pequenos pratos com manga, maçã e banana. Fiquei super satisfeito em ver a molecada se alimentando.


Para não perder o costume, joguei bola, mesmo com o corpo todo doendo do último dia, mas pelo menos é um exercício físico, já que não tenho feito nada nos últimos meses.

Para atualizar o blog, fui para o escritório, que fica na casa das crianças. Comentei sobre uma música indiana, “Kajra Re”, e resolvi colocar para tocar. Eu, as meninas, algumas crianças e a mãe, dançamos enquanto outras crianças observavam desconfiadas. Depois coloquei outra música, dessa vez, “Jai Ho”, do filme “Quem Quer Ser Um Milionário”, e dançamos mais ainda – aquela farra boa!

Fato engraçado – a americana de 16 anos chama Jackeline Chen, mas virou Jackie Chen rapidinho.

domingo, 13 de julho de 2014

Dia 114 - Lamatar, dia 6

Depois de comprar toda a comida necessária, me preocupei em adquirir uma bota ou um tênis que fosse útil nesse período chuvoso e lamacento que estou enfrentando no Nepal, além de quente para a neve, no inverno alemão que está por vir.

Comprei uma bota/tênis da Solomon, uma marca americana bem famosa por esse tipo de calçado. Não foi nada barato, NPR12.000, BRL333, mas por ser algo de extrema qualidade, robusto e confortável, tenho certeza que irá durar por um bom tempo.

Mais uma vez, recorri ao TripAdvisor para procurar um bom restaurante para almoçar e fui para Rosemary Kitchen, considerado o melhor restaurante de Kathmandu. A comida estava realmente muito boa e valeu como última refeição, antes de voltar para o orfanato.

Duas novas voluntárias se juntarão ao meu projeto, sabendo disso, fui encontrar com elas, para pegar uma caroninha para voltar para Lamatar, ao invés de enfrentar os transportes públicos nepalenses. Ambas são americanas com 16 e 17 anos, bem jovens. A de 17 anos, esteve ano passado dando aulas de inglês em um monastério em Kathmandu, mas dessa vez parece que ela não está achando tudo tão legal como da última. Ela surtou tanto, que está tentando adiantar o voo dela de volta para a América, antes mesmo de conhecer o projeto... Isso que dá, aceitar pessoas jovens demais, pois, nem sempre, terão a maturidade para suportar e superar os obstáculos. Além do mais, a menina nunca sorri!!! Está sempre de cara fechada – que preguiça...
Chegando ao orfanato,

pedi para pararem para podermos comprar frutas para as crianças. Comprei 2kg de maçã, 3kg de manga e 2 pencas de banana. Sempre que saio, tento voltar com alguma surpresa para meus meninos e meninas.

Fiquei genuinamente feliz em voltar para o orfanato. Interessante, pois uma semana atrás eu estava entrando em parafuso. As crianças me receberam super bem e adoraram as frutas. Jogamos bola, me ralei todo, fiquei imundo por conta da lama do jardim, mas me diverti bastante.

Estou começando a gostar daqui, de verdade.

sábado, 12 de julho de 2014

Dia 113 - Lamatar, dia 5

07:00 em ponto acordei, e me arrumei para ir ao ponto de onde os transportes partem. Por sorte, não estava chovendo, apesar do tempo nublado, então a caminhada de 10 minutos foi super tranquila e prazerosa, já que a região é bem bonita. A medida que ia passando por bares e pequenas lojas, todo mundo me olhava meio desconfiado.

Peguei o transporte, fui até outra cidade, onde peguei uma van, até então a melhor van que já entrei, e parei no Ratna Park, espécie de rodoviária de Kathmandu. 1:40 depois da minha partida, cheguei ao meu destino, ufa!

Previamente, fiz uma lista de tudo que gostaria de comprar, em relação a comida, higiene pessoal e utilidades.
Fui a um supermercado e gastei NPR2.300, BRL63, com comida.
-2,250 l de leite de soja em caixinha
-12 barras de cereal
-2 pacotes de granola/cereais
-2 pacotes de castanha de caju
-1 embalagem de pasta de manteiga de amendoim


Pode parecer bobagem, mas esses itens vão me fornecer proteína e demais vitaminas que faltam na comida do orfanato. O que me chateia é que eu tenho a oportunidade de sair e comprar essas coisas, enquanto as crianças ficam “presas” e se alimentam apenas de arroz e alguns poucos vegetais.

Conversei com um dos responsáveis pelos projetos sobre a alimentação das crianças. Me disse que é uma questão cultural, a resposta que eu já esperava, mesmo assim,  retruquei, e falei que no orfanato, todos estão em fase de crescimento, então precisam de uma alimentação balanceada para desenvolvimento do corpo e também da mente. Se o que falei foi ou não em vão, pelo menos estou tentando fazer minha parte, mostrando novos horizontes.


Encontrei com meus amigos no hotel e fomos para uma pizzaria chamada Fire and Ice Pizzeria. Comi bastante e de lá fomos para alguns bares, mas como estava bem cansado, resolvi voltar por volta das 23:00 e fui dormir.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Dia 112 - Lamatar, dia 4

Mausam fazendo
macaquices
Choveu a noite inteira e boa parte da manhã. Com isso, andar até o ponto de ônibus seria uma tarefa lamacenta, então deixei para ir a Kathmandu no sábado, pela manhã. Outro motivo é que eu não estava muito confortável em ir hoje. Tento seguir minha intuição.

Li bastante pela manhã, ajudei as crianças nos seus deveres de casa e tomei a tabuada de alguns deles. Um dos meninos é tão, mas tão peralta (não quis chamar a criança de encapetada, pra não deixar ofender o cramulhão), que tenho a audácia de dizer que ele é o meu preferido. Ele se chama Mausam e tem 8 anos, mas por ser muito pequeno, parece que tem uns 4. O sorriso cheio de “janelinhas” dele é a coisa mais encantadora e autêntica, além de ter uma energia e disposição de 25 pilhas Duracell.

Para variar um pouco, fomos todos jogar bola e, durante o jogo, depois de 112 dias, minha havaiana arrebentou. Maldito chinelo vagabundo! Comprei uma edição especial da Copa do Mundo, uma semana antes de embarcar e a porcaria do chinelo já estragou. Utilizei o velho recurso técnico de colocar um grampo de cabelo para segurar a tira do chinelo. Vou continuar assim, até poder comprar algo decente.
Toda sexta-feira, após o jantar, as crianças rezam, cantam e dançam em uma espécie de cerimônia hindu.

Como foi minha primeira sexta, me convidaram para dançar também, e eu, que quase não gosto de fazer bagunça, aproveitei.

Fomos dormir e decidi que acordaria cedo no dia seguinte, para ir a Kathmandu, pois teria menos trânsito e não estaria muito quente.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Dia 111 - Lamatar, dia 3

Quando leio que estou no dia 111, tomo o maior susto. Enquanto os primeiros dias passam lentamente, os demais voam!
Kat jogando bola com Sugam
Acordei e recebi o telefonema de um grande amigo, Márcio, que mora na América – ah, a América... Conversamos por quase meia hora e quando desligamos o telefone, me senti bem melhor.  Amigo não é só pra festas e farras, mas também para nos apoiar, quando precisamos de ajuda. Não imagino uma maneira melhor de começar o dia do que essa.

Conversando com a Kat, resolvi passar o final de semana em Kathmandu, em um hotel, para aliviar um pouco a barra, além de comprar mais suprimentos para os próximos dias. O coordenador do projeto, um camarada de 23 anos, que nem sabe quando está com fome, deu o aval, e já combinei com meus colegas de nos encontrarmos la em Kathmandu. O único porém, é que tenho que pegar 2 transportes (lembrando que não uso a palavra ônibus) e gasto mais de 2 horas para chegar no centro da capital; um suplício, mas vale a pena.

Minha intenção é também comprar uma bota que dure de agora, até o inverno alemão. Como por aqui é época de chuvas fortes, meu tênis Nike, que está precisando ser jogado fora, só serve para proteger meu pé das sanguessugas, mas fica todo molhado.

As refeições do dia, nem preciso dizer que foram arroz, legumes e arroz. As crianças e adolescentes são bem franzinos, provavelmente por conta da alimentação nada balanceada, mais por uma questão cultural, do que falta de alimento. Além disso os dentes são um horror, e meninos de 7 anos de idade tem cáries em todos os dentes.  Esse problema assola os adultos também, que eu nunca vi nenhum deles escovando os dentes. Além da higiene bucal não ser adequada, a água daqui não tem flúor, como no Brasil, algo que contribui imensamente para a manutenção dos dentes. A questão de cuidar bem dos dentes é um ponto muito positivo que o Brasil tem, já que até países da Europa, consideram isso secundário e os tratamentos são caríssimos.

Sugam, Mausam e Manip
Sorrisos a parte, tive um dia tranquilo, joguei bastante bola com a molecada e mais tarde, outros três chegaram de Kathmandu. Eles tem entre 14 e 16 anos, e ficam me perguntando sobre o Brasil, futebol, o que eu faço da vida e tudo mais que se possa imaginar. Todos com uma cara super boa e interessadíssimos em me conhecer melhor.


Sinto que por enquanto, minha missão aqui, por agora, é simplesmente estar presente, seja brincando, conversando, ou ajudando nas lições. Assumo que fico com a consciência pesada de passar um final de semana inteiro longe daqui, já que, apesar de parecer muito, tenho apenas 6 semanas de convivência com o pessoal.
Reassisti aos últimos episódios de “How I Met Your Mother” com a Kat, e fomos dormir

 
 
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